longevidade
17/05/2015
Chegar aos 100 anos é empreender uma travessia pelo mundo lá fora e dentro de si. É da vida: o tempo e a lucidez se (e nos) encontram com o passar dos anos. Envelhecer conduz a perdas e sabedorias
O que vai sendo perdido ou enfraquecido, com o passar do tempo, em nosso corpo e em nossa mente?
R. Envelhecer é perder gradativamente condições físicas na totalidade do organismo, com prejuízo funcional para atividade laboral e intelectual. Em termos psicanalíticos a velhice é uma castração mental que alguns não conseguem suportar.
Como reagir bem ao envelhecimento?
R. Varia de indivíduo para individuo e de cultura para cultura, mas, fundamentalmente, o melhor envelhecimento é aquele que aceita a vida e a morte como parte da grande lei universal que determina o destino humano.
O que seria definido como lucidez aos 100 anos de idade?
R. Lucidez é sabedoria, algo muito diferente de conhecimento, porque implica um alcance ético que poucas pessoas conseguem atingir. A memória é um sistema complexo que interliga linguagem e afeto. A impossibilidade de reter os vínculos afetivos originais com a mãe, ou os pais e a família é um fator de comprometimento no envelhecimento.
Como lidar com as saudades, os lutos, o passado?
R. A saudade é a memória de uma gratificação acontecida e que não mais se repetirá e isso somente pode ser compreendido pela pessoa que alcançou um nível adequado de relação com a realidade. Muitas pessoas morrem apegadas a um passado que não voltará, porque, simplesmente, é o cultivo de um apego infantil. O luto é um dos processos mais difíceis de resolver na mente, pois significa reter conosco o que o outro tem de bom, enquanto nos desfazemos dos aspectos negativos dessa outra pessoa ou ideia. Por outro lado, os indivíduos que lutam contra o luto ou o mascaram podem sofrer de uma incurável depressão. O passado, o presente e o futuro precisam ser harmonizados para que os sentimentos amorosos prevaleçam sobre os de ódio na atualidade. A fruição da harmonia e da beleza resulta dessa capacidade de aceitar o complexo sistema de relações com a família e as outras pessoas, respeitando-as na igualdade e na diferença.
Que principais sabedorias vamos adquirindo ao viver?
R. A maior sabedoria, diz Confúcio, é a mansuetude, que significa tolerância, visão global do mundo e capacidade para discriminar o belo e o bom do feio e desagradável, o justo e o injusto, mas, principalmente, para não querer para os outros aquilo que não queremos que aconteça conosco. Creio que a principal sabedoria é saber que sabemos muito pouco, e que cada pessoa sabe de algo que nós não sabemos. (AMCC)
R. Envelhecer é perder gradativamente condições físicas na totalidade do organismo, com prejuízo funcional para atividade laboral e intelectual. Em termos psicanalíticos a velhice é uma castração mental que alguns não conseguem suportar.
Como reagir bem ao envelhecimento?
R. Varia de indivíduo para individuo e de cultura para cultura, mas, fundamentalmente, o melhor envelhecimento é aquele que aceita a vida e a morte como parte da grande lei universal que determina o destino humano.
O que seria definido como lucidez aos 100 anos de idade?
R. Lucidez é sabedoria, algo muito diferente de conhecimento, porque implica um alcance ético que poucas pessoas conseguem atingir. A memória é um sistema complexo que interliga linguagem e afeto. A impossibilidade de reter os vínculos afetivos originais com a mãe, ou os pais e a família é um fator de comprometimento no envelhecimento.
Como lidar com as saudades, os lutos, o passado?
R. A saudade é a memória de uma gratificação acontecida e que não mais se repetirá e isso somente pode ser compreendido pela pessoa que alcançou um nível adequado de relação com a realidade. Muitas pessoas morrem apegadas a um passado que não voltará, porque, simplesmente, é o cultivo de um apego infantil. O luto é um dos processos mais difíceis de resolver na mente, pois significa reter conosco o que o outro tem de bom, enquanto nos desfazemos dos aspectos negativos dessa outra pessoa ou ideia. Por outro lado, os indivíduos que lutam contra o luto ou o mascaram podem sofrer de uma incurável depressão. O passado, o presente e o futuro precisam ser harmonizados para que os sentimentos amorosos prevaleçam sobre os de ódio na atualidade. A fruição da harmonia e da beleza resulta dessa capacidade de aceitar o complexo sistema de relações com a família e as outras pessoas, respeitando-as na igualdade e na diferença.
Que principais sabedorias vamos adquirindo ao viver?
R. A maior sabedoria, diz Confúcio, é a mansuetude, que significa tolerância, visão global do mundo e capacidade para discriminar o belo e o bom do feio e desagradável, o justo e o injusto, mas, principalmente, para não querer para os outros aquilo que não queremos que aconteça conosco. Creio que a principal sabedoria é saber que sabemos muito pouco, e que cada pessoa sabe de algo que nós não sabemos. (AMCC)
A
medicina explica a longevidade. “A genética (em determinadas
combinações de genes) é responsável por 30% da longa vida. E 70% é a
maneira que a pessoa vive. As pessoas que se estressam muito, ao longo
da vida, normalmente, não duram muito tempo”, sintetiza Luiz Barbosa. A
ciência também avançou no tratamento de doenças crônicas, considera o
geriatra Hastencoubath Guimarães da Frota, e há maior atenção à
qualidade de vida e investimento em saúde coletiva.
Aos 38 anos, o geriatra já se preocupa em “envelhecer bem, porque vemos muitas limitações”. Cuida da alimentação e da atividade física, ainda que saiba não existir “receita de bolo ou medicamento mágico”. “(a velhice) É uma idade esperada, em que você vai fazer outras atividades”, dialoga a geriatra Carla Bezerra Lopes Almeida, 31, que também busca “ter uma velhice saudável”. E une, aos cuidados com o corpo e ao acompanhamento médico regular para prevenir doenças, a manutenção de uma mente saudável, boas relações sociais, um hobby, uma religiosidade.
A vida se fabrica por si própria, entre envelhecer e resistir. Chegar aos cem anos ou ir além não é só caminhar com a história, atravessar o mundo lá fora. É, principalmente, vencer os altos e baixos do tempo, empreender uma travessia pelo mundo dentro de si.
“As coisas vão se acumulando. O processo (de envelhecimento) é contínuo e há uma hora em que essas alterações tomam um peso maior, tem uma significância maior na vida”, explica Carla Almeida.
Ainda que as estatísticas considerem 60 anos como o início do envelhecimento humano, para a geriatra, “não existe uma idade, mas um acúmulo desse processo ao longo do tempo, que pode ser controlado”. “Para cada faixa etária, existem características. A partir dos 20 anos, o ser humano atinge seu auge. À medida que vamos vivendo, vamos perdendo nossa capacidade vital, de maneira lenta e progressiva”, completa Luiz Barbosa.
Envelhecer é atingir uma insustentável leveza de nós mesmos. Há perdas e ganhos - a mensuração é individual, muito particular. De modo geral, audição, visão, força, memória, cognição se desgastam; o organismo já não se defende bem, a pele desidrata com facilidade, o pensamento freia. A senhora de quase 112 anos que caminha por este texto fez cirurgia de catarata duas vezes, enxerga apenas vultos, teve dois AVCs (sem sequelas) e uma fratura de fêmur que a faz sentir dores há 12 anos, informa o médico Luiz Barbosa.
Por fim, resta-nos alguma lucidez – que é, para a medicina, a capacidade de conversar, ter certa autonomia e orientação no tempo e no espaço. Resta-nos o que somos, o que a vida é. “Cada fase da vida tem sua importância naquele momento. Se você vai tendo alguma deficiência na velhice, por outro lado, vai chegando à sabedoria. E a sabedoria é o encontro de toda a existência, é onde você é capaz de ver o sentido real da vida... É na velhice onde a pessoa tem a possibilidade de ser feliz em toda a sua existência”, conclui o médico.
Aos 38 anos, o geriatra já se preocupa em “envelhecer bem, porque vemos muitas limitações”. Cuida da alimentação e da atividade física, ainda que saiba não existir “receita de bolo ou medicamento mágico”. “(a velhice) É uma idade esperada, em que você vai fazer outras atividades”, dialoga a geriatra Carla Bezerra Lopes Almeida, 31, que também busca “ter uma velhice saudável”. E une, aos cuidados com o corpo e ao acompanhamento médico regular para prevenir doenças, a manutenção de uma mente saudável, boas relações sociais, um hobby, uma religiosidade.
A vida se fabrica por si própria, entre envelhecer e resistir. Chegar aos cem anos ou ir além não é só caminhar com a história, atravessar o mundo lá fora. É, principalmente, vencer os altos e baixos do tempo, empreender uma travessia pelo mundo dentro de si.
“As coisas vão se acumulando. O processo (de envelhecimento) é contínuo e há uma hora em que essas alterações tomam um peso maior, tem uma significância maior na vida”, explica Carla Almeida.
Ainda que as estatísticas considerem 60 anos como o início do envelhecimento humano, para a geriatra, “não existe uma idade, mas um acúmulo desse processo ao longo do tempo, que pode ser controlado”. “Para cada faixa etária, existem características. A partir dos 20 anos, o ser humano atinge seu auge. À medida que vamos vivendo, vamos perdendo nossa capacidade vital, de maneira lenta e progressiva”, completa Luiz Barbosa.
Envelhecer é atingir uma insustentável leveza de nós mesmos. Há perdas e ganhos - a mensuração é individual, muito particular. De modo geral, audição, visão, força, memória, cognição se desgastam; o organismo já não se defende bem, a pele desidrata com facilidade, o pensamento freia. A senhora de quase 112 anos que caminha por este texto fez cirurgia de catarata duas vezes, enxerga apenas vultos, teve dois AVCs (sem sequelas) e uma fratura de fêmur que a faz sentir dores há 12 anos, informa o médico Luiz Barbosa.
Por fim, resta-nos alguma lucidez – que é, para a medicina, a capacidade de conversar, ter certa autonomia e orientação no tempo e no espaço. Resta-nos o que somos, o que a vida é. “Cada fase da vida tem sua importância naquele momento. Se você vai tendo alguma deficiência na velhice, por outro lado, vai chegando à sabedoria. E a sabedoria é o encontro de toda a existência, é onde você é capaz de ver o sentido real da vida... É na velhice onde a pessoa tem a possibilidade de ser feliz em toda a sua existência”, conclui o médico.
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