Disputa, as maiores forças políticas da terra do Bispo Conde Dom José Tupinambá da Frota:
O voo do "Ícaro Sobralense": a história do salto que terminou em tombo na campanha de 1969.
A ala liderada pelo ex-prefeito Cesário Barreto Lima lançou como candidato o comerciante e deputado estadual Joaquim Barreto Lima, o popular Kinkão. Já a família Parente Prado lançou o engenheiro-agrônomo Vicente Antenor Ferreira Gomes, o Dr. Nôzinho.
O companheiro de chapa do primo-irmão de Cesário era também comerciante: José Frota Carneiro, conhecido como Dedéis.
Ele tinha um irmão gêmeo, desportista, ex-jogador amador do Guarany Sporting Club e, na época, presidente do clube: o também muito popular Manoel Frota Carneiro, o Manés.
O companheiro de chapa de Kinkão era proprietário da Fábrica de Azulejos Sobral e dono de uma loja de materiais de construção.
Era um cidadão de estatura mediana, pele branca, rosto arredondado, voz rouca e usava uma vistosa peruca para esconder a precoce calvície.
Adorava discursar nos comícios.
Seu Dedéis, nos palanques, depois de seus discursos, tinha a mania de se jogar no meio do povo. Antes, anunciava ao microfone, ao som do estouro de foguetes, que iria pular.
Antes de cair no chão de terra batida ou no calçamento, era aparado no ar por apoiadores previamente contratados.
O nosso Ícaro sobralense arregimentava alguns ajudantes para servir de rede de proteção durante seus saltos cívicos.
Era a marca registrada do vice de Joaquim Barreto Lima: voar para os braços do povo.
A campanha havia entrado na reta final.
O comício de encerramento da família Barreto Lima acontecia na Praça da Sé, onde quase 10 mil pessoas esperavam para ouvir seus candidatos.
O popular José Frota Carneiro já havia distribuído maços de cigarro, litros de cachaça e até um dinheirinho para os apoiadores responsáveis por evitar sua queda durante o ousado salto.
Vestido com uma brilhante blusa verde, mais parecendo um papagaio, estava pronto para seu voo de Ícaro sobralense. Mandou comprar três baterias de foguetes e pediu à charanga de Darley que tocasse a música de campanha, a famosa "O Homem é o Quinca".
Ajeitou a peruca, que estava um pouco torta, e, com sua voz rouca, interagiu mais uma vez com a multidão:
"Vocês querem que eu pule? Vou pular! Vou pular!"
As pessoas que estavam em frente ao palanque se afastaram, formando um grande círculo vazio.
O nosso herói voador caiu estatelado sobre o chão de pedra tosca da Praça da Matriz, em Sobral.
Parecia a queda de um abacate passado de maduro.
O comício foi interrompido para socorrer o vice de Kinkão, que ficou com braços e pernas ralados e um pequeno ferimento na cabeça.
Seu Dedéis, já sem a peruca, gemia de dor e xingava, com palavrões impublicáveis, os ajudantes que não o seguraram no momento do salto.
A verdade é que seus contratados haviam enchido a cara de cachaça e, na hora H, não estavam a postos para segurar "o homem" em queda livre.
Terminava, assim, de forma hilariante, o voo do Ícaro sobralense.
A eleição terminou com a vitória de Joaquim Barreto Lima, o Kinkão, por mais de mil votos de maioria sobre o candidato da família Prado, o engenheiro-agrônomo Vicente Antenor Ferreira Gomes, o Dr. Nôzinho.
Esta história foi contada pelo ex-deputado estadual e escritor César Barreto, que resgatou esse curioso episódio da história política de Sobral em uma de suas narrativas sobre a cidade.