Atualizado: 09/08/2014 20:00 | Por Julia Affonso e Rodrigo Burgarelli, estadao.com.br
Se já era difícil convencer os jovens de 16 e 17 anos a votar, as
manifestações de junho de 2013 tornaram essa tarefa mais árdua. A taxa
de adolescentes dessa idade que tiraram título de eleitor um ano antes
da data da votação diminuiu em um terço em 2014, se comparada à média
dos três últimos pleitos presidenciais. Neste ano, apenas um em cada
quatro jovens elegíveis para votar se alistaram, a proporção mais baixa
do século até agora.
As manifestações
interromperam uma curiosa regularidade do alistamento eleitoral dos
jovens entre 16 e 18 anos. De acordo com a legislação brasileira, jovens
nessa faixa etária podem votar se quiserem, mas não são obrigados.
Desde o início do atual século, uma proporção constante desse
contingente se registra para votação no ano anterior a cada eleição -
uma taxa que fica um pouco maior nas eleições municipais que nas
estaduais e federais.
Em 2008 e 2012, a taxa
de adolescentes que tirou título de eleitor para votar para prefeito e
vereador foi de cerca de 43% em relação ao total de jovens dessa idade,
segundo cruzamento dos dados de alistamento do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) com os da projeção da população do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). Nas disputas de 2002, 2006 e 2010, a
proporção ficou entre 36% e 37% em cada uma. Em 2014, o índice caiu para
26%.
Como a data-limite do registro para
votar é até maio do ano da eleição, é impossível não relacionar essa
queda às repercussões dos protestos de junho de 2013. Entre aquele mês e
maio deste ano, 760 mil jovens deixaram de pegar seus títulos, em
comparação com a quantidade que se alistaria caso a proporção das
últimas eleições tivesse sido mantida. Só esse número já é quase o dobro
dos 440 mil adolescentes com título de eleitor que se absteve e não
compareceu às urnas em 2010.
“Todas as
distorções da política brasileira apareceram de maneira muito forte nas
manifestações”, diz o professor de Ciência Política da USP José Álvaro
Moisés. Segundo ele, a falta de confiança dos jovens nas instituições
políticas existentes no Brasil é uma das explicações de por que
adolescentes que se engajaram em protestos hoje preferem não participar
do processo eleitoral.
Desilusão política | Create Infographics
Descrença.
O crescimento de organizações que questionam as instituições
tradicionais está ligado a esse fenômeno. O Movimento Passe Livre, por
exemplo, foi símbolo das manifestações de 2013 em São Paulo e hoje
promove discussões sobre o Brasil em escolas públicas.
“A
política não se faz só em um dia, a cada dois ou quatro anos. Para nós,
é mais importante convencer os jovens de que eles devem se mobilizar
ativamente pelos seus direitos do que conceder uma procuração a um
governante para fazer isso por eles”, afir
Índice de brasileiros com idades entre 16 e 17 anos que se cadastraram na Justiça Eleitoral cai para 26% em 2014